São Luís: sabor de música para o cardápio da festa dos 400 anos

06/12/2011 § 1 comentário

Identidade, cultura e música: o mosaico da produção musical maranhense no cenário da capital quatrocentenária

São Luis celebra 400 anos (há controvérsias sobre a tal fundação francesa). Resta nos perguntar, o que aprendemos ao longo deste tempo todo, de toda a história da cidade construída até então.

Mas, a música maranhense tem o que celebrar? Os maranhenses conhecem sua música e se reconhecem nela? Os 400 anos da capital revelam a maturidade de sua gente no que diz respeito à afirmação de uma identidade musical que valoriza a cultura local e faz o diálogo desta com o mundo?

Um mundo que, dado certo isolamento por conta da localização geográfica e da falta de condições e estratégias locais de artistas, produtores e gestores, mesmo tendo ao nosso favor as novas tecnologias e as facilidades proporcionadas por elas, mas, isso ainda é insuficiente, fica distante demais desta capital encravada numa ilha. E a sensação que se tem é a de que realmente ficamos a maior parte do tempo, isolados.

São Luis é de uma riqueza impressionante, feita de pluralidade, de musicalidades, de cores.  Há uma herança musical inerente a quem nasce por estas bandas. A cultura popular pulsa latente na veia do maranhense, e há quem diga que nesta terra cujo sangue da maioria é herdado da miscigenação de negros e índios, já se nasce com a batida dos tambores marcando o compasso do coração, ainda que o próprio sujeito não reconheça isso.

Mas, os pesquisadores falam também de um ethos maranhense calcado numa mentalidade de espera pelo redentor, alguém que, externo a essa realidade, irá recuperar ou descobrir tudo o que há de bom e bonito por aqui para daí a música daqui passar a acontecer no resto do país, no mundo. E até mesmo, quem sabe depois do reconhecimento lá de fora, ser descoberta e reconhecida pelos próprios maranhenses. A idéia foi relacionada a produção musical maranhense num artigo que é fundamental para compreender o tema, escrito por Ricarte Almeida Santos, Da MPM ao Som do Mará, enquanto não cai o véu: o sebastianismo na música popular do Maranhão.  

Que bom que alguns personagens da nossa música, essa com cara, jeito, ginga e poesia de maranhense, não pensaram assim e foram à luta. Colocaram-se em movimento. Foram para as ruas e praças, sentir a cultura popular lá onde ela nasce, abstraindo dela a inspiração para suas criações e assim a afirmação de uma identidade. Criaram, desfizeram, recriaram grupos de teatro, de música com teatro… experimentaram. Um movimento que não era único, plural na origem, nos personagens, influências, formas, e que, na década de 1970, convergiu de maneira mais forte para um antigo casarão chamado Laborarte (Laboratório de Expressões Artísticas).

O Laborarte acabou por congregar uma parte da energia criativa daquele período. E de certa forma se constituía em parte da representação local de toda uma movimentação artística que acontecia no restante do país, com fortes elementos dos anseios de liberdade de criação diante do contexto de repressão da ditadura militar que se vivia no Brasil. Sinal de que aqueles jovens estavam antenados, conectados com o restante do país num período em que internet era filme de ficção científica para aquele contexto e personagens. Outra lição a ser aprendida hoje.

Como compreender a cabeça daquela juventude que foi buscar na cultura popular a afirmação de sua identidade maranhense, e ao mesmo tempo não esqueceram o diálogo com o mundo, com os movimentos musicais e outras formas artísticas que aconteciam no país? Que eram influenciados pela Jovem Guarda, Tropicália, Edu Lobo, Egberto Gismonti, e ao mesmo tempo pelos bambas da Madre Deus como Cristovão Alô Brasil, Bibi Silva e Caboclinho e pelos grandes mestres da cultura popular.

Laborarte, Movimento Antroponáutica, Rabo de Vaca, Corre Beirada, Tiro de Misericórdia, nomes de grupos e movimentos por vezes pitorescos mesmo, porque a intenção daqueles jovens artistas maranhenses – músicos, atores, compositores, falando várias linguagens artísticas simultaneamente – era chamar a atenção, ir ao encontro do seu povo e dizer que ali estava nascendo algo novo. E que queriam ser vistos, ouvidos e reconhecidos.

Esses movimentos tiveram personagens importantes como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe (em seis partes, 1, 2, 3, 4, 5 e 6, antológica entrevista do trio ao jornalista Itevaldo Jr.), e posteriormente outros que compreenderam e assimilaram ou mantiveram a sinergia cultural daquele período, com o espírito de construir uma musica com identidade maranhense. Chico Maranhão, Chico Saldanha, Ubiratan Sousa, João Pedro Borges, dentre tantos outros nomes, que se não chegaram a integrar o Laborarte, também contribuíram para a construção de uma música com feições maranhenses.

E como essas criações foram se constituindo em beleza pura, em criações genuínas, respeitando a tradição da cultura popular, mas não no sentido de torná-las fast-food e receitas prontas para serem recortadas e inseridas de forma descontextualizada nas suas poesias e melodias. Os compositores que se lançaram nessas pesquisas, foram sentir a pulsação boieira, do tambor de crioula, da mina, não para pescar ritmos, mas para compreender sua riqueza melódica, poética e rítmica e incorporá-las respeitosamente em suas canções.

Com apenas um disco gravado e dezenas de composições espalhadas em trabalhos alheios, Cesar Teixeira já conta mais de 40 anos de carreira

CESAR TEIXEIRA, compositor forjado naquela inquieta geração laborarteana, hoje em plena atividade criativa e produtiva, fala das motivações daquela época: “Ali se conseguiu trabalhar uma linguagem musical, que não era “bairrista” nem folclórica, mas inspirada na riqueza melódica e poética (e não apenas rítmica) das nossas manifestações populares, visando dar um rosto para aquele movimento e acrescentar novos itens ao nosso cardápio musical, que já trazia o samba, a embolada, o choro etc.  – além das canções que sempre buscavam inovações harmônicas. Nem todos persistiram nesse caminho, buscando outras experiências musicais”, afirma.

Perguntado sobre se toda aquela efervescência influenciou na produção de hoje, ele é categórico: “Sei que parte da nova geração de autores sofreu grande influência dos que lapidaram as primeiras experiências com os ritmos e poéticas locais para dar um rosto para a MPB produzida no Maranhão. Basta ouvir”, diz.

Apararam veredas, abriram caminhos, forjaram uma identidade para nossa história e produção musical. Continuam hoje com o mesmo espírito criador que instigou as andanças e os movimentos que fizeram num período extremamente adverso, onde cantar toadas era feito destinado aos mestres da cultura e tinha o seu lugar restrito. Mas eles tiveram a ousadia de fazer exatamente o que é a natureza da arte. Inovar, quebrar barreiras, criar, pôr-se em movimento.

Então recém-retornado de Belo Horizonte, onde havia passado uma temporada e onde resolveu dedicar-se à música, JOSIAS SOBRINHO, maranhense de Cajari, compositor contemporâneo de Cesar naquela movimentação, integrou-se em 1973 àquele grupo de artistas do Laborarte para dar vazão ao desejo de fazer música popular com influências regionais.

É ele quem fala da importância que teve o antológico Bandeira de Aço (1978) para a história fonográfica da produção maranhense e registro fundamental de todo aquele processo que esses artistas estavam vivendo: “Por volta de 77, 78, dá-se a produção do LP Bandeira de Aço, onde participo com quatro músicas, dois bumba bois, um samba (originalmente uma mina) e uma mina. O Bandeira de Aço vira cult e a produção musical maranhense dá uma guinada vertiginosa na direção de suas raízes populares”, conta.

O pós-Laborarte e o reconhecimento com Bandeira de Aço não acomodaram Josias Sobrinho. Pelo contrário. Deu-lhe mais motivação para sair e ir ao encontro do povo, da rua: “Depois do Laborarte me envolvo com uma trupe de jovens músicos em uma companhia teatral e de lá saímos com um grupo de musica popular formado, o Grupo Rabo de Vaca, e começamos a tocar por tudo em quanto é canto da cidade. Andamos também pelo interior. Reiteradamente tenho voltado ao ponto de partida em sucessivos movimentos artísticos”, relembra.

Muita coisa e muita gente veio depois. Inclusive a tentativa de engaiolar todo aquele esforço criativo dentro de uma sigla: MPM. Será que essa sigla ajudou na afirmação de uma identidade musical maranhense? A respeito disso temos excelentes análises publicadas por dois pesquisadores. O artigo De Zeca Baleiro a Bruno Batista… ainda bem que “eu não ouvi todos os discos”, de Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, publicado no jornal Diário da Manhã, em 2004, que suscitou debates interessantes nos impressos da cidade; e outra análise importante escrita pelo cientista político, Flávio Reis, que também reconstituiu a partir de diversas leituras o contexto de toda aquela movimentação em torno do Laborarte, o artigo Antes da MPM, publicado no jornal Vias de Fato em setembro passado.

E aí, já estamos no finalzinho do ano de 2011, em pleno contexto da festa dos 400 anos de São Luis, perguntando quando e como a música maranhense vai acontecer. Para o povo maranhense e para o Brasil. Pra começo de conversa, as iniciativas que estão em curso apontam que as festividades vão passar longe das necessidades reais de políticas públicas de cultura que possam valorizar e reconhecer todo o esforço tanto desses personagens, como de quem faz a festa cotidiana mantendo bem vivas as chamas da nossa identidade, através da música popular.

Para Zema Ribeiro, jornalista e incansável pesquisador da cena cultural da cidade, falta organização dos artistas, uma ação mais processual na produção musical e na formação de plateia para que música maranhense possa falar para dentro: “Devemos almejar o universal, mas mantendo as particularidades, como já diria um velho russo. É um desafio, talvez anterior a tudo isso, formar plateia. Não adianta querer ser ouvido na Inglaterra se você não consegue colocar meia dúzia de pessoas numa plateia aqui, seja num bar ou num teatro. E é um desafio também a união e organização da classe artística, para reivindicar políticas públicas, para reivindicar apoio, mas não só apoio do governo e não só nos períodos de carnaval e São João, mas apoio permanente, inclusive no sentido de se permitir essa formação de plateia, em qualquer época do ano: música não é fruta de estação”, acredita.

ZEMA RIBEIRO vai mais além quando afirma que o que falta também é intercâmbio, mesmo com os estados que fazem fronteira com o Maranhão: “As produções locais deveriam conversar com outras, no sentido de garantir a ida de artistas daqui para outros palcos. Por que é que o Piauí é bem aí do lado e as coisas mais novas que conhecemos são [os poetas] Mário Faustino e Torquato Neto? Será que não tem gente lá produzindo? É claro que tem! Mas a gente sabe? Não. E nós? Somos conhecidos por eles? Também não. É caro ir ao Piauí ou ao Pará? Não é. Então o que é que emperra? Esses conceitos de centro e periferia estão sendo cada vez mais derrubados com a internet”, pontua.

Pensamento semelhante tem o jovem compositor Bruno Batista, que já lançou dois cds autorais: o homônimo Bruno Batista (2004) e Eu não sei sofrer em inglês (2011). O disco mais recente, produzido e gravado em São Paulo, já o levou aos palcos em diversos cantos do país. A idade não condiz com a maturidade revelada nas suas composições, música e letra. Também seus pensamentos acerca da produção musical no Maranhão, revelam uma clareza sobre os desafios que estão postos: “Penso que a classe artística carece de maior força organizacional e união para apresentar à iniciativa privada, ao próprio Estado e, principalmente, ao público, um trabalho sólido, com propostas dos mais variados matizes, que possibilitem o investimento e retorno”, afirma. E referindo-se ao reconhecimento que produções de estados como Bahia, Pernambuco e o Pará alcançaram nacionalmente, BRUNO BATISTA completa: “Acho que o Maranhão precisa encontrar o seu caminho que, ao meu ver, passa também pela aceitação e reconhecimento da população do que é a música do nosso estado, e uma melhor exploração das nossas particularidades”.

O bom é perceber que, apesar do contexto político ou geográfico adversos para a desejada afirmação e reconhecimento, a produção maranhense segue adiante de forma teimosa e criativa. O ethos maranhense negro e indígena tem outro elemento chamado resistência que lhe é bastante favorável e peculiar. Uma das nossas particularidades, diríamos. Ainda assim, não se pode fechar os olhos para o fato de que nomes como Alcione, Rita Ribeiro, o próprio João do Vale desde a década de 1950, Zeca BaleiroFlávia Bittencourt, partiram de malas e cuias para o eixo sudeste em busca de oportunidades. Mas a dupla Criolina, formada por Alê Muniz e Luciana Simões, que recentemente ganhou o prêmio de Melhor Álbum da Música Brasileira – Categoria Popular com o seu Cine Tropical sinaliza uma postura mais alternativa, nem tanto lá, nem cá, mas entre cá-e-lá, de forma estratégica.

Isso demonstra que as lições dos laborarteanos foi, de certa forma, apreendida e canalizada pela nova geração de compositores maranhenses como Zeca Baleiro, Bruno Batista, Gildomar Marinho, Alê Muniz, Beto Ehongue e tantos mais, afirmando que o que precisa mesmo é de colocar-se em movimento, para continuar os caminhos criadores deste mosaico cultural e musical da quatrocentenária São Luis. Afinal, é o que parece afirmar um dos versos mais conhecidos e repetidos de Cesar Teixeira: “e quem nos ajudará a não ser a própria gente?”

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